Desde muito cedo viajar para mim foi uma grande paixão. Algumas das mais fortes lembranças da minha infância são as viagens de jeep com meu pai pelas estradas de terra do interior do Rio Grande do Sul, onde nasci.

A partir dos 14 anos comecei a viajar pelo sul do país, de carona, acampando em praias ainda desertas do litoral de Santa Catarina. Com o passar dos anos passei a me aventurar mais longe e aos 17 anos fiz minha primeira grande aventura, indo passar um mês na Bolívia e Peru. Esta foi uma viagem determinante na minha vida já que me fez entrar em contato com duas fortes motivações na escolha futura de um destino de viagem: culturas e modos de vida diferentes e paisagens montanhosas. Voltei desta viagem decidido a dedicar todos os momentos livres, todas as férias para conhecer outros países.

Nos próximos anos conheci a Argentina, Chile, Uruguai, Equador e Colômbia. Durantes estas viagens encontrei inúmeros viajantes de outros países que estavam “fazendo” a América do Sul, viajando por um ano. Apesar deste ser um sonho quase impossível, na época estava cursando medicina na Escola Paulista de Medicina, prometi a mim mesmo de alguma forma ter, no futuro, este tipo de experiência.

Me formei, fiz residência em pediatria na própria Paulista e em 1983, antes de iniciar minha vida profissional, resolvi viajar por 1 ano e meio. Encontrei muita oposição de minha família, apreensão dos amigos e um certo receio por minha carreira. Fui para a Europa por onde viajei por um ano seguindo então para a Ásia.

Nunca esquecerei o meu desembarque em Colombo, capital do Sri Lanka vindo do frio glacial de Moscou em dezembro. Repentinamente estava em uma outra realidade. Aquilo que buscava estava lá. Um mundo novo com uma forma de pensar, de ver o mundo, totalmente diferente, sem as refêrencias que tinha no tido na Europa e que me remetiam ao Brasil.

Segui para a Índia, Nepal e Bangladesh. Foram experiências fortes, duras, marcantes. Na metade de 1994 estava pronto para voltar ao Brasil para trabalhar como médico.

Nos próximos 5 anos morei no Brasil, trabalhei as duras horas de um médico em começo de carreira e viajei sempre que possível. Fiz paraquedismo, explorei as trilhas da Mantiqueira, viajei de moto pela costa do Brasil e voltei para países da América do Sul.

Aos poucos, a vontade de viajar por um longo tempo foi voltando concomitantemente com meu desencanto, não pelo profissão, mas sim pela qualidade de trabalho e pela minha funcão como médico de periferia onde os problemas eram muito mais sociais do que médicos.
Em março de 1999 embarcava rumo ao Nepal, desta vez com o intenção de não mais voltar. Não tinha um plano para longo prazo, estava aberto para o que a vida pudesse me apresentar. Nunca antes ou desde então tive uma experiência de viagem tão importante, tão rica e tão decisiva. Por um ano e meio viajei pela Ásia em um ritmo extremamente calmo, lendo muito, conhecendo pessoas interessantes e entrando em contato com novas experiências.

Fiz vários longos trekkings pelos Himalaias, passei 40 dias junto com 30 sherpas fazendo um curso de guia de montanha na região dos Annapurnas, viajei 3 meses de bicicleta de Katmandu ao Ladakh, no norte da Índia e, talvez a maior descoberta deste ano tenha sido viver 1 mês no monastério de Tushita, em Daramshala, onde está o governo do Tibete no exílio, residência de Sua Santidade o Dalai Lama. Lá fiz um curso residêncial de filosofia budista que confirmou o que eu já vinha sentindo sobre o que via e sentia ao meu redor pelos lugares de cultura budista. Uma sabedoria prática, voltada a busca de felicidade e com grande ênfase em compaixão. Nos próximos anos, mais e mais, me senti atraído por esta filosofia até que um dia comecei a me sentir budista.

Depois de alguns meses na Austrália trabalhando e percebendo que todo trabalho tem dignidade se seu coração está nele, estava de volta à estrada.

Por seis meses percorri de bicicleta a Nova Zelândia, Tahiti, Ilha da Páscoa, Chile, Argentina, Uruguai e Brasil. Mais ma vez senti que esta é a melhor forma de se viajar onde cada quilômetro é saboreado, onde cada paisagem é descoberta lentamente.

Em 1992, junto com mais três sócios, abria a empresa Altas Viagens e começava minha carreira de empresário de turismo e guia. Tinha descoberto minha vocação, meu estilo de vida e minha maneira de dividir o tanto que a vida tinha me dado.

A idéia posta em prática era dar às pessoas o mesmo tipo de experiência de viagens que tinha tido nestes anos. Contato intenso com a cultura local, vivênciar e não só ver os lugares e usar este tempo de férias como aprendizado e não só descanso.

Às viagens culturais e de aventura se seguiram viagens temáticas de budismo, filosofias, paisagismo e Yoga. A maneira de encarar férias no Brasil estava mudando e mais e mais pessoas comungavam comigo este conceito de viagens.

Em 2000 decidi voltar ao Brasil e ver se estava pronto para voltar a viver de maneira um pouco mais convencional. Morava no Brasil e trabalhava no escritório por seis meses e no restante do ano guiava meus grupos pela Ásia. A esperiência durou 4 anos, ao final dos quais resolvi voltar ao meu estilo de vida anterior. Mais uma vez abandonei a idéia de um “porto seguro”, de um lugar para voltar. Os hotéis e barracas me dão tudo o que quero e a liberdade que tanto necessito. A constante mudança ensina desapego e o estilo de vida corresponde ao que minha alma anseia.

Em 2003 junto com Alexandre Cymbalista e Dedé Ramos, ampliamos nosso conceito de viagens para outros destinos além dos da Ásia. Nascia assim a Latitudes.

Olhando para trás não posso deixar de ver que as decisões que tomei ao direcionar minha vida foram difíceis, porém acertadas. Não deixei o medo da incerteza me imobilizar em um destino que não era o meu.

Nesses anos descobri budismo, meditação e yoga, instrumentos que tentei usar para me tornar um ser humano mais equilibrado, mais compassivo, mais tolerante. Caminhei pelas trilhas do Nepal, Índia, Paquistão, Butão, Austrália, Nova Zelândia, Bolívia, Peru, Chile e Equador, lugares que fizeram meu coração bater forte e onde, com muita frequência, os sorrisos e a hospitalidade encontrados deixaram marcas ainda mais profundas do que as paisagens deslumbrantes. Escalei montanhas nevadas e descobri a profunda felicidade de chegar em um cume há muito sonhado. Desci caudalosos rios de corredeira por remotas áreas do Nepal em pequenos kayaks. Realizei um grande desafio esportivo onde, mais do que nunca, aprendi que sonhos associados a disciplina, organização e determinação podem nos levar a atingir metas aparentemente impossíveis. E continuo sonhando...