| |

DA AUSTRÁLIA PARA O BRASIL - SEIS MESES DE BICICLETA
De volta ao Brasil - Maio de 1991
Como quase todas as cidades de fronteira que conheço, Chui não é um lugar muito agradável. Mas, tenho uma lembrança muito marcante de minha chegada lá. Ao pedalar por uma de suas ruas, repentinamente senti o cheiro de feijão sendo cozido. Após mais de dois anos fora do Brasil e sem comer comida brasileira, estava com muita saudade dos sabores e cheiros familiares. Desci da bicicleta e me encostei na parede da casa de onde vinha o delicioso cheiro e lá fiquei, como que paralisado de prazer. Um pouco mais tarde, ao comermos um “prato feito” com arroz e fejão, a Leonie me perguntava o que eu via de tão especial em uma comida tão simples. Feliz ou infelizmente, nunca mais fui capaz de sentir falta de uma comida de forma tão intensa. Os anos “na estrada” me ensinaram a não ter tanto apego a coisas que necessariamente seriam passageiras na minha vida.
De Chui tínhamos duas estradas para seguir rumo a Porto Alegre, a estrada “normal”, asfaltada ou a chamada Estrada do Inferno. É claro que este nome tinha um apelo todo especial e não pudemos resistir a tentação de percorrê-la. E a Estrada do Inferno não era chamada desta forma sem motivo, como viemos a descobrir um pouco tarde. Esta região do sul do Rio Grande do Sul abriga a maior laguna brasileira, a erroneamente chamada Lagoa dos Patos. Do lado oeste dela, passa a estrada asfaltada. A leste, no estreito corredor que separa a Lagoa do oceano atlântico, o terreno é pantanoso e mesmo nos períodos de seca a estrada de terra que teimosamente aí construíram, é quase impossível de ser percorrida, principalmente de bicicleta.
Depois de um dia, mais carregando as bicicletas do que pedalando, devido a enorme quantidade de lama que em pontos tinha mais do que 20 cm de profundidade, resolvemos desistir e tentar prosseguir pela praia. Outra decisão errada... A praia do Cassino é considerada, corretamente ou não, como a maior praia do mundo. O fato é que ela é uma longa extensão de areia bege inclinada, “de tombo”, sempre com ondas e com muita freqüência com vento. E foi por aí que, por mais de 200 quilômetros, prosseguimos. Como a areia da parte de cima da praia era muito fofa para pedalar, seguimos quase ao nível da água, o que praticamente destruiu as bicicletas. Ao final de mais de 7.000 quilômetros, nossas bicicletas estavam praticamente novas devido ao grande cuidado que tínhamos com a manutenção. Minhas aulas de mecânica de bicicleta tinham sido de grande utilidade. A cada 1.000 quilômetros eu fazia uma revisão completa e com muito mais freqüência colocava óleo e graxa nas partes móveis. Ao chegarmos em Porto Alegre algumas marchas não mais entravam e a corrente fazia um terrível barulho.
Outro problema durante esses dias foi a falta de água doce. Mesmo com o frio que fazia com a brisa do mar nesta época do ano, ainda precisávamos de uma grande quantidade de água a cada dia. E a praia não oferecia nenhum riacho onde pudéssemos nos abastecer. No primeiro dia, por falta de água doce, resolvemos tentar cozinhar nosso macarrão com água do mar. A tentativa não foi bem sucedida, a quantidade de sal na água era extremamente grande e esta noite fomos dormir sem jantar. Nos dias seguintes conseguimos alguma água com os pescadores que encontrávamos no caminho, mas de um modo geral passamos bastante sede.
De Porto Alegre subimos a serra gaúcha para visitar minha avó que morava em Farroupilha, cidade onde nasci. Nesses dias por lá acabamos virando celebridades locais, o filho aventureiro que volta ao lar.
Seguimos então para o Itaimbezinho, com formações rochosas lindíssimas e descemos para o litoral de Santa Catarina. A partir daí começamos procurar uma cidade onde pudéssemos morar pelos próximos 6 meses. Era em busca dessa experiência que tínhamos ido ao Brasil. Mas, só fomos encontrar as condições adequadas dois meses mais tarde em Cabo Frio, onde consegui um emprego na prefeitura como médico pediatra e a Leonie como professora em uma escola de inglês. E lá passamos 6 meses trabalhando 3 horas por dia, o mínimo que precisávamos para sobreviver, jogando fresco ball, aprendendo capoeira e o mais importante, a Leonie entendendo o que é o Brasil.
De Santa Catarina seguimos para o litoral do Paraná subindo então para o litoral de São Paulo via Cananéia. Seguimos por uma estrada de terra, impassável em alguns trechos a não ser em veículos com tração nas quatro rodas. Para nós significava carregar as bicicletas por alguns trechos.
Por este caminho chegamos ao litoral sul passando por Itanhaem e chegando em Santos. Lá nos esperava o Luís Simões, grande amigo da época de minha primeira viagem de bicicleta nos himalaias e que agora tinha voltado temporariamente a morar no Brasil. Juntos subimos o Caminho do Mar, a antiga estrada que ligava o litoral à capital. Esta estrada, hoje fechada para qualquer veículo, na época estava aberta para bicicletas, mas não creio que muitos se aventuravam a subí-la. São apenas 7 quilômetros de subida cobrindo um desnível vertical de 700 metros! Nossa forma física foi posta a prova e passou com méritos. Subimos lenta, mas continuamente carregando ao redor de 40 quilos de bagagem.
No final da estrada o Luís foi para sua casa e eu e a Leonie resolvemos passar a noite em uma invenção tão nacional, o motel. A Leonie nunca tinha estado em um deles e sonhávamos com um delicioso banho de banheira para relaxar nossos músculos cansados. Também não queria chegar na casa da minha irmã à noite. Queria chegar de manhã para ter bastante tempo para colocar todos os assuntos em dia e matar as saudades.
Mesmo hoje, 14 anos depois, é raro ver nas estradas brasileiras bicicletas com alforges carregados. Na época, por onde passávamos causávamos sensação. Imaginem nossa chegada em um motel, de bicicletas, com roupas de ciclismo e capacete fluorescente! Quando então as moças da recepção, que normalmente são tão discretas com os clientes, nos perguntaram de onde estávamos vindo e ouviram a habitual resposta: “Austrália”, não se contiveram. Em poucos minutos, contrariando todas as regras do estabelecimento, todos os funcionários do motel estavam ao nosso redor, fazendo perguntas e olhando os estranhos veículos onde estávamos montados.
Na manhã seguinte, com muita calma, percorremos os últimos quilômetros de nossa jornada rumo ao Brasil. Tinham sido 6 meses de uma deslumbrante viagem, quase 10.000 quilômetros de pedal, muito esforço, mas muita diversão e muitos encontros inesquecíveis.
Estava de volta para uma parada de 6 meses no Brasil. Depois disso percorremos alguns países da América do Sul, mas isso é uma outra história...

|
|