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DE VOLTA AO HIMALAIA INDIANO
A caminho da Cachemira - Junho de 2003
Leh está situada no vale do rio Indus, um dos principais rios da Ásia. Ele nasce no Tibete, cruza o norte da Índia e atravessa o Paquistão desaguando próximo de Karachi. Próxima do rio, Leh é quase um oásis no meio da aridez do restante do Ladakh. Neste vale são plantados ceveda da qual se faz o tsampa, alimento básico de todos os povos tibetanos. Mas, também se planta batata, trigo sarraceno, e, mais recentemente, com ajuda taecnológica estrangeira, vegetais usando-se estufas. Depois da construção das duas estradas, Leh também começou a receber uma variedade muito maior de alimentos trazidos pelos enfeitados caminhões Tata que cruzam as estradas de toda a Índia. Com isso, tivemos a oportunidade de comprar comida mais ou menos variada para nossa próxima jornada.
O caminho de Leh à Kargil, mais ou menos na metade do caminho à Srinagar, está pontilada de lindos e antigos monastérios, mas destes o que mais se destaca sem dúvida é Lamaiuro. Situado no alto de uma colina e datando de 1.000 anos atrás, este monastério nos remete a uma outra era. É como, se de repente, embarcássemos em uma jornada no tempo. O acesso ao monastério se faz por ruelas estreitas que serpenteiam colina acima com freqüência se transformando em pequenos e escuros túneis por baixo de 2 ou 3 casas. Enquanto se caminha pela cidade antiga, os únicos sons que se ouvem são os latidos dos cães, o barulho das bandeirolas de orações ao vento e, ao fundo, o entoar dos mantras vindos de algum canto do monastério. Em suas entranhas, enquanto estávamos lá, 15 monges faziam o retiro tradicional de 3 anos, 3 meses e 3 dias. Isolados do mundo por esse período, eles recebem comida e água, mas não tem contato com os outros monges. Durante este período, meditam, rezam e se dedicam ao aprendizado das escrituras budistas.
Nos instalamos em uma pequena pensão na parte nova da pequena vila e nos deixamos ficar absorvendo a magia do lugar. Pela manhã, fomos assistir ao puja, cerimônia religiosa, dos pequenos monges. Sentados em lótus e embrulhados em pesados casacos cor de vinho, crianças de 5 a 12 anos entoavam harmonicamente os versos, causando um efeito hipnótico na sala em penumbra. Presidindo a cerimônia, uma estátua de Buda com sua expressão de bondade e sabedoria. Mais uma vez me senti absolutamente em casa neste tipo de ambiente e cercado pelos simpáticos sorrisos dos monges. Conversando com um deles mais uma vez ouvimos o ensinamento central dado por Buda a seus discíulos mais de 2.500 anos atrás, as chamadas “Quatro Verdades Nobres”:
1 – A vida tem, como parte inerente, sofrimento
2 – Este sofrimento é causado pelo apego
3 – Este sofrimento tem uma solução
4 – A solução é o chamado “Caminho Óctoplo:
• visão perfeita (a visão baseada na compreensão das quatro nobres verdades e da não-individualidade da existência);
• pensamento perfeito (pensar na boa-vontade, não fazer mal aos seres viventes);
• palavra perfeita (evitar mentir, falar mal de outrem);
• ação perfeita (evitar ações que conflitem com a disciplina moral);
• vida perfeita (evitar profissões que façam mal aos seres vivos);
• esforço perfeito (evitar todas as ações que tragam carma);
• intenção perfeita (boas intenções no pensamento, corpo e sentimentos);
• meditação perfeita (manter a consciência plena)
Pensando nesse sábio ensinamento seguimos nosso caminho, os últimos 250 quilômetros de nossa jornada. Mais duas subidas e, de repente, estávamos em um outro planeta. Estava refazendo meus passos da viagem de 1989, mas ao contrário. E ainda mais do que antes, indo do Ladakh para a Cachemira, a mudança é dramática. Depois de mais de dois meses da linda, porém agressiva paisagem de deserto de altitude, estávamos nos lindos vales verdes com riachos de montanha que caracterizam este estado indiano. Infelizmente, porém, nao só beleza nos esperava desta vez em Cachemira. Depois de 4 anos de uma violenta guerra civil, a região estava destruída e as pessoas tristes, fechadas. De todos com quem conversámos, ouvimos histórias dramáticas de mortes, mutilações, migração forçada e perda material.
Nossa estadia em uma das house boats não teve o charme e a alegria que Srinagar normalmente oferece. Em dois dias tomamos o ônibus para Delhi.
A viagem tinha sido maravilhosa em termos de paisagem, desafios e encontros com generosas pessoas que nos ajudaram. Mais uma vez comprovei que viajar de bicicleta é uma das melhores maneiras de descobir os lugares especiais deste planeta.

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