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PEDALANDO PELO NEPAL E PELA ÍNDIA
Bicicleta e trekking no Zanskar - Agosto de 1989
A estrada para Kargil já era nossa conhecida e não apresentou novidades. Os problemas começaram quando começamos a pedalar rumo a Padum, a capital do Zanskar. Nunca até então e nem mesmo nas minhas outras viagens de bicicleta encontrei estrada tão difícil para pedalar. Foram três dias de pedregulhos soltos que faziam com que cada quilômetro demorasse uma eternidade e, ao final do dia, sentia todos os músculos doloridos.
Todo o esforço foi compensado pela paisagem maravilhosa e por sabermos que estávamos em uma das regiões ainda muito pouco exploradas do planeta. E assim, pedalamos até o final da estrada em Padum. Mesmo hoje, 16 anos depois, ainda é aí que a estrada acaba e a única forma de se prosseguir é caminhando.
Compramos comida para 10 dias, contratamos um muleiro com duas mulas para carregar nossas bicicletas desmontadas e começamos nosso trekking rumo ao sul tendo como destino final a cidade de Manali. Nos próxmos 10 dias caminhamos ao redor de 8 horas por dia atravessando vários passos, um dos quais com mais de 5.000 metros. Nosso caminho quase foi interrompido por um rio caudaloso que com o degelo do verão tinha se tornado muito perigoso para cruzar. Quando chegamos, no final da tarde, tentamos atravessá-lo, mas estava muito alto. Na manhã seguinte continuava perigoso e o muleiro se recusava a tentar a travessia. Na tarde anterior, uma mula tinha morrido. Depois de uma hora andando para cima e para baixo na margem procurando algum lugar onde a travessia fosse mais fácil, decidi me amarrar em uma corda e tentar de qualquer forma. Antes de sair do Nepal, meses atrás, tinha me inscrito em um curso de guia de montanha na NMA, Nepal Mountaineeiring Association, que teria início no final de agosto. Não podia ficar preso por causa do rio. Duas pessoas ficaram rio acima segurando a corda e passo a passo atravessei com a água gelada chegando até o peito. Tiritando de frio cheguei na margem oposta e amarrei a corda em uma árvore e usando-a como apoio conseguimos atravessar todos as mulas sem problemas.
Poucos dias depois voltava a Katmandu de onde tinha saído há quase 4 meses. Ainda hoje, 16 anos depois, posso lembrar cada dia desta memorável aventura com muita saudade. Poucos meses atrás fui assistir ao filme “Sansara” e pude rever algumas das paisagens maravilhosas que percorremos naquele distante verão. Ao terminar a viagem sabia que tinha descoberto a maneira perfeita de viajar e mal podia esperar para fazer outra viagem de bicicleta. Mas, isso teria de esperar mais um ano e meio...

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