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PRIMEIRA TRAVESSIA FLEURY ATLÂNTICO AO PACÍFICO
A Realização, o Aconcagua - 2002
Depois de voltar a Mendonça encontrei os clientes amigos que tinham combinado de fazer a escalada comigo: Neco, Jorge e Pedro, além do Fernando Cruz que tinha decidido me acompanhar mais uma vez ao Aconcagua. Após a tensão dos últimos dias com o Kubi e dos muitos dias solitários na bicicleta era uma delícia estar entre amigos novamente. O desafio físico tinha acabado. O Aconcagua é fisicamente bem exigente, mas sabia que isso não era o fator determinante do sucesso para a escalada. Aqui, experiência e sorte com o imprevisível clima contavam muito mais.
Saímos de Mendonça com a L200 agora já sem as bicilcetas e o kayak, que ficaram na cidade, e seguimos para Puerta del Inca, o pequeno conjunto de casas que marca a entrada do Parque Provincial Aconcagua. No próximo dia começamos nossa caminhada rumo ao campo base. Mas, como sempre em meus trekkings e escaladas, prestamos muita atenção à aclimatação e prosseguimos de forma cuidadosa e lenta. Vinte anos de montanha tinham me ensinado a respeitá-las. Tinha que dar tempo aos nossos corpos se adaptarem as crescentes altitudes que iríamos enfrentar.
Assim, dormimos 3 noites em Confluência, um campo a 3.300 metros de altitude. Em um dos dias fizemos uma caminhada de aclimatação ao campo base da temível parede sul, uma das vias de escalada mais difíceis e perigosas do mundo.
Já aclimatados à altitude de Confuência, estávamos prontos para prosseguir, desta vez até o campo base da via normal, a chamada Plaza de Mulas a 4.300 metros. Esta caminhada é uma das partes mais cansativas do Aconcagua. São mais de 20 quilômetros de uma trilha pedregosa, acidentada com 1.000 metros de desnível vertical. Desta vez, assim como seria nesta escalada toda, o tempo nos ajudou. Durante a noite anterior ocorreu uma grande tempestade de neve e o caminho, antes pedregoso, agora estava coberto por uma linda camada de neve que facilitou muito nossa caminhada, além de deixá-la sensivelmente mais bonita.
A partir do campo base adotamos o ritmo que iríamos seguir dali em diante. Um dia de descanso, seguido de um dia de transporte que consistia em levar parte do equipamento para o próximo campo, e no dia seguinte avançar para o próximo campo. Assim seguimos do campo base para o campo 1 e de lá para o campo 2.
No décimo primeiro dia de montanha fizemos o transporte do campo 2 ao campo 3, o último campo situado a 6.000 metros. A idéia era no dia seguinte subir ao campo três e no outro tentar o cume.
Dentro da imprevisibilidade do clima no Aconcagua existe um certo padrão. As “janelas” de bom tempo não duram mais do que três dias. Já estávamos com dois dias de tempo bom e tinha medo de que se não atacássemos o cume no dia seguinte, talvez a janela se fechasse e nossa chance de cume desaparecesse.
Passei a tarde toda no gostoso Nido de Condores, nosso campo 2, pensando sobre os prós e contras de estabelecer um campo três ou de atacar direto do campo 2. Do Nido de Condores ao cume seriam 1500 metros verticais a uma altitude bastante grande, de 5.500 a quase 7.000 metros. Talvez fosse demasiado para nossa equipe. Por outro lado, se a janela não durasse mais do que um dia só nos restaria descer.
Após o período de bom tempo, normalmente vários dias de mau tempo se seguem. Depois de muito pensar juntei toda a equipe e combinamos que sairíamos as 4 da manhã para o cume se o tempo estivesse bom.
Passei uma noite bem agitada checando a cada minuto como estava o céu. Mas, por toda a noite ele continuou limpo, repleto de estrelas e sem vento.
As três da manhã com uma temperatura amena para esta altitude, apenas menos 15 graus centígrados, começamos a nos preparar. Conforme combinado, as 4 da manhã estávamos caminhando em fila indiana sob os círculos de luz de nossas head lamps. É sempre um momento especial para mim quando saio rumo ao cume de uma montanha. Para esta mais ainda. Meses de treino, muito esforço, muitas alegrias, algumas tristezas, mas agora estava a poucas horas de concluir um sonho que tinha começado tantos meses e a tantos quilômetros de distância, em uma pequena ilha do sul da Tailândia.
Caminhávamos em silêncio, guardando energia e cada um com seus pensamentos. Conseguiríamos? O ritmo era bastante lento, mas regular e mantido. Aos poucos íamos ganhando preciosos metros.
Quando você está coberto dos pés a cabeça por várias camadas de roupas, sua visão se resumi aos poucos centímetros que sua lanterna ilumina, e você apenas ouve o ruído de sua respiração trabalhosa tentando conseguir do ar rarefeito o precioso oxigênio que seus músculos tanto necessitam, é normal você entrar em uma espécie de piloto automático, pé direito, respiração, pé esquerdo e a mente vagar para outros lugares. Assim eu seguia dentro da noite.
Depois de duas horas caminhando no escuro tivemos um maravilhoso prêmio na forma de um dos mais fantásticos nasceres do sol da minha vida. Conforme o sol subia, uma sequência incrível de picos ia se tornando dourados ao nosso redor. Era como se estivéssemos no topo do mundo, nada por centenas, por milhares de quilômetros, estava acima de nós.
Chegamos no campo 3 em pouco mais de 2 horas e meia e depois de um breve descanso continuamos a subida. Mas o Fernando não pode nos acompanhar. Ele, que desde a noite passada não vinha passando bem, aos 6.000 metros se sentiu ainda pior e decidiu que não era sábio continuar. Com muita tristeza nos despedimos e prosseguimos.
As próximas horas se passaram sem que eu tenha muito registro, apenas o lento progredir rumo ao cume. Conforme a altitude aumentava nosso ritmo diminuia ainda mais. Um passo, uma respirada para se tornar um passo, duas respiradas. Mas, em um determinado momento consultei o meu altímero e o relógio e percebi que iria chegar ao cume. Já tínhamos caminhado quase sem parar por 8 horas, mas ainda me sentia forte e em condições de chegar lá. Meu coração se encheu de alegria e uma nova força reanimou minhas pernas.
A 200 metros do cume o Jorge e o Pedro decidiram que não poderiam mais prosseguir. Tinham chegado ao seu limite. Após descansarem brevemente começaram a descida rumo ao campo dois, 1.200 metros abaixo. Conversei com o Neco e apesar de, assim como eu, muito cansado, achou que poderia continuar. E assim, muito lentamente galgamos os últimos metros que nos separavam do nosso objetivo.
As 16 horas, doze horas depois de sairmos de nossas barracas no campo 2, três meses depois de ter iniciado a travessia, chegávamos ao cume do Aconcagua, a mais alta montanha do mundo fora da Ásia. Foram sete meses de treino, três meses de travessia, e lá estava eu, no Teto das Américas. Tinha transformado mais um sonho em realidade!

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